sábado, 10 de abril de 2021

Como lidar com a crise da civilização

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A pandemia e os seus efeitos para a sociedade. Foto: Arquivo / Pedro Conforte

Tenho falado, nas inúmeras lives e entrevistas de que participo, acerca do lockdown e de seus efeitos danosos para a sociedade, a economia, as crianças, os assalariados, os empresários, pequenos empreendedores e comerciantes, e toda a gama de pessoas que são prejudicadas com a paralisação dos serviços e com o prejuízo daí advindo.

Sempre esclareço que, em um país com tamanha pobreza como o Brasil, as medidas isolacionistas promovidas na Europa, continente em que as dimensões populacionais e territoriais dos países são pequenas, são fadadas ao insucesso, e que mesmo que os governos se esforcem, os auxílios nunca atingirão a população toda, além de gerarem um déficit monstruoso para a nação, com um impacto que perdurará por anos. 

Falo, também, do modo como os EUA conduziram a pandemia, esse sim um país gigantesco, e que agora estão com os casos em avançado declínio, mesmo sem a realização de lockdowns agressivos. Sei que o vírus existe, não sou “negacionista” ( termo inventado pela esquerda para mitigar os argumentos contra o isolamento, sem sucesso), mas creio que há outras formas  de se lidar com o seu avanço. 

Vejo uma capitalização política enorme nos discursos públicos, e isso me deixa bastante preocupada com o futuro de nosso país. Afinal, a política era, segundo Platão, a arte de dar uma vida boa para a população, e deveria ser, segundo o filósofo, exercida pelos homens mais sábios, que apresentavam maior capacidade de lidar com as situações e tomar decisões. Infelizmente, não é isso que vemos por aqui.

Quando abordo tais temas, muitas pessoas me perguntam qual será o futuro que nos espera, se dizem angustiadas e me questionam sobre quais atitudes devem tomar, diante do quadro atual de coisas. Afinal, o mundo todo está em crise. A minha resposta, invariavelmente, é sempre a mesma: ordenem-se por dentro, cuidem de sua casa, de sua família, de seu trabalho, de seu entorno, pratiquem a religião. 

Eric Voegelin, escritor alemão naturalizado americano, que fugiu de sua terra natal em 1938, para não ser preso pelo regime nazista, e tornou-se um professor, escritor e palestrante mundialmente famoso, foi quem primeiro tratou dessa ideia, do modo que a exponho aqui. Mergulhou fundo na corrupção da sociedade alemã, através da destruição dos símbolos humanos e divinos, pela linguagem, o que permitiu que Hitler fosse acolhido como um semideus. 

Este grande analista da realidade vai explicando, em sua obra Hitler e os Alemães, que a miséria intelectual e moral que tomou conta da Alemanha após a 1ª Grande Guerra, foi um terreno fértil para a chegada de Hitler, que tratou de modificar a linguagem e derrubar a religião, para ter maior controle sobre os indivíduos e suas mentes, assim que ascendeu ao poder.

Voegelin foi o maior cientista político do século passado, e nunca deixou de ter os pés bem fincados no chão. Muito conhecido na Europa e nos EUA ( embora praticamente desconhecido no Brasil), era um profundo estudioso de Platão, Aristóteles, Max Weber, tendo sido aluno de Hans Kelsen. O professor Olavo de Carvalho , por ser um grande admirador de suas obras, tem sido um dos responsáveis por difundi-las por aqui.

Esclarecia Voegelin, em suas obras, que o mais importante, para o indivíduo ( e o mais difícil também), é a busca da ordem interna do ser. Estar em ordem interna, mesmo dentro do caos, conhecer a verdade e saber seu propósito de vida, tendo a certeza de que este é o desejo divino para os homens, deve ser a missão da vida de cada um.  

Estamos atravessando tempos sombrios, loucos, nos quais o medo e a ignorância coletivas cegaram a humanidade. A miséria moral e intelectual a todos atingiu e contaminou. A linguagem foi corrompida, para que em seu lugar sejam inseridas as ideologias. A civilização vive uma grande crise espiritual e de símbolos. As crenças vem sendo trocadas por ideologias que subvertem a ordem moderna. 

Isso, historicamente, aconteceu em muitas nações. A Alemanha não foi a única. Temos como exemplo a Russia de Stalin, a Venezuela, Cuba, a Coréia do Norte, a China e muitas outras, que encantaram-se  pelo canto da sereia de ditadores cruéis, travestidos de heróis, os quais foram modificando a linguagem e o sentido das palavras e dos símbolos, a fim de tornarem a sociedade uma massa de manobra rendida às suas vontades tirânicas. 

Como digo insistentemente, a História é cíclica, ela se repete. Deveríamos aprender com as tragédias gregas, que eram escritas em forma de trilogia, e possuíam as seguintes etapas: o excesso, a transgressão; o sofrimento, a punição; a redenção, transformação. O crescimento vem da dor, e é preciso sentir na pele o peso das escolhas, para que a mudança chegue. 

As tragédias gregas eram escritas e encenadas com caráter educativo, e com a finalidade de mostrarem para o povo que era possível evitar o sofrimento e a punição, fazendo as escolhas certas. Nós, infelizmente, não conseguimos. Falimos como civilização, e agora vivemos uma profunda crise moral e espiritual. Vamos arcar com as consequências disso.

Assim são os ciclos sociais. Já desfrutamos dos excessos, como sociedade, desde a década de sessenta do século passado. Entramos em rota de colisão com os valores conservadores, dando de ombros para tudo que deu certo, ao longo das eras da civilização. Os excessos nos levaram ao caos. Agora, vivemos a ressaca desses excessos, nos encontramos perdidos, desorientados, e pagaremos um preço alto pelos símbolos e valores que fomos dispensando ao longo dessa trajetória, os quais nos escoravam como civilização.  

Voegelin dizia que, enquanto isso, devemos aproveitar para nos conectar com a ordem interna que todo homem precisa ter, e que é obtida através da busca do divino, do estudo da filosofia, do resgate das virtudes. O indivíduo precisa investir nos cuidados com a família e com o lar, em sua mente, seu corpo e sua alma, para só então, em prefeita comunhão consigo, sair a lutar pelo mundo. 

Isso lembra bastante o ensinamento do psicólogo canadense Jordan Peterson, sobre arrumar o próprio quarto, antes de sair por aí ditando as fórmulas para modificar o mundo. Eu, você, nossos familiares, pouco ou nada podemos fazer, para modificar a sociedade atual, corrompida por ideologias. 

Mas podemos estudar os clássicos, praticar a religião, passar adiante valores morais sólidos, resgatar os símbolos e a linguagem, para que o mal não prevaleça sobre o bem, para que Deus retorne aos lares e aos corações da humanidade, e para que dias melhores cheguem para o nosso sofrido Brasil. 

“Ninguém está obrigado a participar da crise espiritual de uma sociedade; ao contrário, todos estão obrigados a evitar a loucura e viver sua vida em ordem”

Eric Voegelin

A niteroiense Erika da Rocha Figueiredo é escritora, promotora de Justiça Criminal, Mestre em Ciências Penais e Criminologia pela UCAM, membro da Escola de Altos Estudos em Ciências Criminais e do MP Pro Sociedade, aluna do Seminário de Filosofia e da Academia da Inteligência. Me siga no Instagram @erikarfig

Texto extraído da Tribuna Diária, publicado em 29/03

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