domingo, 27 de setembro de 2020

Criança morre e família acusa erro médico em hospital de Niterói

Myrella estava internada há quase um mês no Getulinho. Foto: Arquivo Pessoal

Há cerca de um mês, no dia 4 de agosto, a família da pequena Myrella de Oliveira Ferreira – que fez 1 ano em 31 de julho – iniciou uma luta para tentar salvar a vida da criança, que não resistiu e morreu na última sexta-feira (11), no Hospital Getúlio Vargas Filho (Getulinho), no Fonseca, Zona Norte de Niterói. A família acusa dois hospitais municipais de Niterói de negligência médica.

Segundo a dona de casa e mãe da menina, Scarlatt Pralon, de 28 anos, que é moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, a família foi para Itaipu, na Região Oceânica de Niterói, para comemorar o aniversário da criança na casa da sogra. Porém, alguns dias depois, Myrella começou a apresentar febre baixa, de 37,7ºC a 38ºC, e iniciou-se a angústia da família em busca de respostas.

Scarlatt conta que levou a criança para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Mário Monteiro, que fica em Piratininga, no dia 4 de agosto, e contou que inicialmente recebeu o resultado de crise de bronquite, logo, foi receitado Amoxicilina, apesar da falta de exames. Na segunda vez em que procurou a unidade, na mesma semana, foi informado que Myrella estava com infecção urinária e novamente foi indicado medicamento, dessa vez o Bactrim, sem investigação mais profunda do caso.

Não satisfeita com o atendimento na UPA, a mãe da criança contou que resolveu levar a menina no Getulinho, no dia 13 de agosto. No local, Myrella passou por exames de raio-x, de sangue e urina. Após isso, ela foi liberada com a receita do aumento da dosagem do medicamento que a pequena já estava tomando, o Bactrim.

“A febre era insistente e eu queria que fizessem mais exames nela. Não satisfeita, fui em uma clínica particular no Badu, no dia 12 de agosto, onde a médica confirmou que minha filha estava com infecção urinária. Porém, Myrella continuou com febre e eu retornei com ela ao Mário Monteiro no dia seguinte (13). Olharam os exames que fiz no Getulinho e afirmaram que ela não estava com infecção urinária, que o que ela tinha era estomatite. Perguntei o motivo da dor que ela sentia na barriga e a médica me informou que devia ser por causa da dosagem do Bactrim – que havia sido dobrada de 2,5 ml para 5ml, para consumo de 8 em 8 horas”, informou a mãe.

Apesar do diagnóstico de estomatite, Myrella continuou com febre e foi levada pela mãe ao Mário Monteiro novamente, no dia 17 de agosto. Scarlatt contou que, antes de saírem de casa, a menina estava brincando e comendo normalmente e só ficava amuada quando a febre insistente, de aproximadamente 37,7ºC, surgia.

“Cheguei lá e a médica nem deixou eu falar. Simplesmente pegou e mandou eu ir à sala de medicamento aplicar uma injeção de dipirona na minha filha. Após a injeção, Myrella virou os olhos e apagou [desmaiou] no meu colo. Aí começou o desespero. Eu pedi para transferir ela, enrolaram de 13h até 21h, mas ninguém fazia nada. Só entraram em contato com o Getulinho depois que arrumei uma confusão”, emendou.

No Getulinho, Scarlatt recebeu o diagnóstico de que a filha estava fraca e sonolenta, que iriam induzir o coma para que o tratamento fosse mais eficiente. No entanto, logo depois, ela recebeu a informação de que a filha não iria mais andar, enxergar e que, talvez, nem acordasse mais do coma. A mãe da menina informou que o resultado médico foi dado novamente sem ter feito novos exames.

Na unidade do Fonseca, Myrella recebeu medicamentos diretamente na veia, entre eles, aciclovir e fentanil.

“Fizeram uma tomografia no dia que chegamos [17 de agosto, no Getulinho] e não deu nada. Depois da terceira tomografia, após alguns dias que estávamos lá, disseram que viram uma pequena lesão no cérebro dela. Também tiraram um líquido da lombar e afirmaram que acusou meningite. O tempo foi passando e o problema foi agravando. Na última ressonância, disseram que o cérebro dela estava bem prejudicado. No eletro, a neuro suspeitava de uma morte cerebral. Durante esse tempo de internação, minha filha ficou com os dedos queimados, porque não trocaram o sensor dos dedos. Na costela esquerda também tinha uma queimadura, mas não falavam nada, nem o motivo disso”, afirmou a dona de casa.

A dona de casa ainda afirmou que a criança morreu durante um exame para atestar morte cerebral, que é feito com o procedimento de retirada do respirador e análise de pressão e saturação.

“A médica de plantão tirou ela do respirador e conforme tiraram do aparelho, a pressão caiu muito. A fisioterapeuta alertou a médica e ela falou muitos palavões. Aquilo [o exame] forçou demais a minha filha. Ela tinha que ter interrompido o exame. O advogado vai dar andamento no processo. Nada vai trazer minha filha de volta, mas queremos justiça. A diretora da unidade ainda ofereceu ajuda para a gente, disse que demitiu a médica, mas não me provou”, finalizou Scarlatt, que irá registrar o caso na Delegacia do Fonseca (78ª DP).

Scarlatt é mãe de mais quatro filhos, mas Myrella era filha única do pai da criança.

Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde de Niterói lamentou o ocorrido e esclareceu, em nota, que “de acordo com a direção da Unidade de Urgência Mário Monteiro, Myrella Oliveira Ferreira, moradora do município de Nova Iguaçu, recebeu atendimento do pediatra de plantão e realizou exames complementares como Raio X e exame de sangue sem alterações no dia 4 de agosto. Ao retornar para emergência no dia 8 de agosto, a paciente realizou novos exames que indicaram possível infecção urinária. Foi receitado antibiótico e solicitado retorno. No dia 10, a paciente foi atendida no Getulinho. Foram realizados novos exames como raio X, sangue e urina. Como a paciente já estava em uso de antibiótico, a medicação foi mantida. No dia 13, a equipe médica reavaliou e substituiu o medicamento solicitando novo retorno dentro de 48 horas. É importante esclarecer que em todos os momentos a paciente apresentou bom estado geral, sem febre e sem indicação de internação. A criança retornou apenas no dia 17, desta vez apresentando febre e sonolência. No mesmo dia, Myrella foi transferida para o Getulinho, com quadro neurológico, suspeito de meningite, onde recebeu os cuidados necessários, realizou tomografia por três vezes, ressonância, raio x e outros exames como hemograma e urina. Além do atendimento pela equipe de plantão, a paciente foi avaliada por um médico neurocirurgião”.

Segundo a Prefeitura, ‘a evolução do caso ocorreu com agravamento do estado de saúde e a paciente veio a óbito’ na manhã do dia 11 de setembro.

“O hospital Getulinho já realizou diversas conversas com a família. Um médico indicado pelos parentes da paciente conversou com a equipe médica do hospital na quarta-feira passada. O hospital está à disposição da família. A direção do Getulinho entregou o prontuário nesta terça-feira (15). É importante esclarecer que há um prazo legal de 30 dias para entrega do documento, pois a unidade de saúde precisa anexar todos os boletins de atendimento e exames realizados. De toda forma, o Getulinho agilizou este processo para disponibilizar para família o quanto antes”, concluiu a nota.

Dosagem equivocada

De acordo com um clínico geral, que preferiu não se identificar, a dosagem de 5 ml do medicamento Bactrim deveria ser, no máximo, de 12 em 12 horas para uma criança do peso de Myrella – 10 kg.

A dosagem errada do medicamento pode causar náuseas, vômito, diarreia, cefaleia, vertigens, tontura e distúrbios mentais e visuais.

Sobre a dor no estômago, o médico relata que “não consta como efeito adverso, mas há quem possa ter intolerância”.

Outro caso

A morte de Myrella relembra um caso recente que aconteceu na mesma unidade de saúde, da bebê Juliana, de apenas seis meses, que sofreu queimaduras durante uma internação no Hospital Municipal Getúlio Vargas Filho.

Os ferimentos em cerca de 37% do corpo foram causados por um banho quente, com água a aproximadamente 50ºC, no dia 18 de agosto. A menina não resistiu e morreu no dia 28, apenas 10 dias depois do ocorrido.

A profissional responsável tinha sido afastada preventivamente e, após a conclusão da apuração, foi demitida.

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1 thought on “Criança morre e família acusa erro médico em hospital de Niterói

  1. Olá sou tia Mirella irmã scarlatt menina tava bem foi curti aniversário dela mãe dela me deixou eu ciente de tudo desde começo nem interro deu para resto família ir porque tudo foi muito rápido queromos justiça

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