terça, 20 de outubro de 2020

Cubango, Sossego e Porto da Pedra se reinventam de olho no título

Há uma semana para as escolas de samba da Série A de Niterói e São Gonçalo entrarem na Avenida, as agremiações se reinventam na luta pelo título e de olho na elite do carnaval carioca, apesar das dificuldades financeiras, devido à falta de subsídios da Prefeitura do Rio.

Duas das escolas se apresentam já na próxima sexta-feira (21). A Unidos do Porto da Pedra, de São Gonçalo, é a quarta a desfilar e a Acadêmicos do Cubango, de Niterói, entra logo depois. Já no sábado, é a vez da Acadêmicos do Sossego abrir os desfiles do dia na Marquês de Sapucaí.

Cubango

Esculturas com cor de cobre retratam o Reino de Benim. Foto: Wallace Rosa

A verde e branco de Niterói leva para ‘palco’ do Carnaval carioca a história do patrono da abolição, Luiz Gonzaga Pinto da Gama. O enredo ‘A Voz da Liberdade’ foi elaborado pelos carnavalescos Raphael Torres e Alexandre Rangel, que trabalham juntos há 12 anos, mas estão pela primeira vez à frente da Cubango, após terem sido contratados no final de maio de 2019.

Pouco conhecida, a história retratará a vida do personagem, jornalista, poeta e advogado abolicionista, que mesmo livre, foi escravizado e lutou pela libertação de mais de 500 escravos do cativeiro ilegal.

No primeiro setor, os carnavalescos irão abordar os ancestrais de Luiz Gama, retornando ao Reino de Benim – estado africano do período pré-colonial da Nigéria. A história ainda retrata o tráfico de escravos para o Brasil e discorre sobre a Revolta dos Malês, ocorrida em 1835 e liderada por Luísa Mahim, mãe de Luiz Gama.

Carnavalescos preparam surpresas para o desfile da agremiação. Foto: Wallace Rosa

Ao todo, serão 21 alas, compostas por 2,3 mil componentes; três carros alegóricos e um tripé, sendo o abre alas acoplado. O ator Déo Garcez, que protagoniza Luiz Gama no teatro, também dará vida ao personagem na Avenida.

Entre as surpresas da escola, uma delas será na Comissão de Frente, que irá abordar o negro escravizado. Para o último carro foi reservado um espaço para pessoas que lutam pela causa negra.

“Falar de reinos culturais é muito importante e vamos trazer no enredo uma pessoa que quase não é lembrada. As pessoas sabem de Luiz Gama, mas não reconhecem a importância dele em nosso país. Temos certeza que será impactante”, explicou o carnavalesco Alexandre Rangel.

O carnaval da agremiação já está praticamente pronto. Para enfrentar a crise financeira, a escola reciclou materiais usados no desfile anterior, readequando ao projeto artístico desse ano.

“Cada escola tem um processo diferente de trabalhar, então todo ano é um desafio. Aqui é uma escola que está nos dando uma estrutura muito boa e estamos trabalhando confortavelmente. Não tivemos subvenção do Rio esse ano, mas tivemos apoio da Prefeitura de Niterói e estamos trabalhando com o que temos”, informou Torres.

Sossego

Presidente e diretor de carnaval da escola apresentaram as fantasias que serão usadas no desfile. Foto: Wallace Rosa

A Sossego vai apresentar à comunidade do samba uma verdadeira mistura de ritmos com o percussivo maracatu, que tem origem no estado de Pernambuco e vem acompanhado de dança, ritual e sincretismo religioso.

A Azul e Branca navegará nas águas com o enredo ‘Os Tambores de Olokun, através do trabalho cultural de um grupo de percussão do Rio de Janeiro, que tem o mesmo nome da sinopse. A divindade é o senhor do mar, metade homem e metade peixe, pai e mãe de Iemanjá. O tema está sendo desenvolvido por uma comissão.

A escola do Largo da Batalha inicia o desfile com as profundezas dos oceanos e faz um culto em homenagem ao orixá, no palácio de Olokun. O segundo setor apresenta Recife e suas raízes culturais, onde nasceu o maracatu, abordando os costumes de culinária e pesca do local.

Em seguida, os personagens do ritmo afro-brasileiro são apresentados na Avenida de forma cênica, juntamente com a eleição do rei e da rainha, feita na igreja de Nossa Senhora do Rosário. No último setor, é a vez do Rio de Janeiro surgir através das influências vindas para o estado, pelo grupo com danças da cultura africana.

Atualmente a escola é presidida por Hugo Júnior, que estava na função de diretor de Carnaval em 2019 e dará continuidade ao trabalho feito no ano passado para tentar se consolidar entre as escolas da Série A.

“A escola está vindo para fazer história. Temos seguimentos fortes e estamos terminando a parte das fantasias, que já estão 90% prontas, faltando apenas os acabamentos finais. Adiantamos o trabalho e estamos conseguindo driblar a falta de recursos”, declarou.

A escola entra na Sapucaí com 2,1 mil componentes, divididos em 24 alas. Ao todo, são três carros alegóricos, sendo um deles tripé, todos seguindo o cronograma de montagem.

Carros alegóricos já estão em fase de finalização. Foto: Wallace Rosa

O diretor de carnaval Alexandre Dias promete surpresas no final da apresentação da escola, que comemora o seu jubileu de ouro, ou seja, 50 anos de existência – feitos no dia 10 de novembro -, da melhor forma possível: na Avenida. A Comissão de Frente, comandada pelo coreógrafo Jardel Lemos, também virá com uma novidade guarda a sete chaves.

“O que a comunidade pode esperar é uma Sossego forte e alegre, que vai dar seu sangue na avenida. A escola está com todas as alas preenchidas e com fila de espera”, revela.

Surpresa no desfile de 2019, o mestre de bateria Lion foi mantido na escola para fazer a azul e Branco brilhar na avenida novamente. Lion, que tem apenas 27 anos, está na escola desde 2010 e passou pela escola mirim e pelos grupos C e B até chegar ao grupo de acesso.

Ele irá comandar 230 ritmistas que irão apresentar quatro bossas durante o desfile.

“Vamos abrir a bateria, fazer um teatro e apresentar um maracatu. O meu seguimento é o coração da escola e é uma responsabilidade que vem desde cedo na minha vida. Estamos muito focados”, explicou Lion.

Porto da Pedra

Porto da Pedra leva enredo de baianas para a avenida. Foto: Wallace Rosa

A vermelho e branco de São Gonçalo enfrenta seu maior desafio financeiro. Além de não contar com subsídio da Prefeitura do Rio, como as outras escolas da Série A, a Porto da Pedra também não recebeu recursos da Prefeitura de São Gonçalo.

Apenas no último domingo de janeiro (26), o Tigre iniciou os ensaios de rua, no bairro Patronato, próximo a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Em 2020, a Porto da Pedra levará para a Sapucaí o enredo “O que é que a baiana tem? Do Bonfim à Sapucaí”, desenvolvido pela carnavalesca Annik Salmon. A sinopse vai além do clássico da MPB com o mesmo título, imortalizado pela voz de Carmen Miranda. A escola se aprofunda no histórico da personagem, na experiência afrodiáspora brasileira, fazendo uma viagem do cais do Porto de Salvador aos navios negreiros, passando pela culinária ancestral, a religiosidade e o ‘templo do samba’, com banho de cheiro e lavagem da avenida.

“Abordaremos a história das baianas quituteiras desde o início, quando ainda escravizadas e chegaram ao porto de Salvador, depois como negros e negras de ganho até começarem seu ofício de quituteira. Hoje as baianas de acarajé, famosas em toda Bahia. Falamos da vinda dessas negras chegando no Rio de Janeiro, a famosa baiana Tia Ciata, as grandes procissões religiosas até chegar nas nossas baianas do carnaval”, contou Annik, que foi carnavalesca da Unidos da Tijuca entre 2015 e 2019, no Grupo Especial.

A agremiação de São Gonçalo ainda leva uma novidade para a Avenida: a procissão de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. A primeira ala, da taieira (uma dança folclórica de cunho religioso) é quem abre o ritual.

Preparativos da escola já estão nos ajustes finais. Foto: Wallace Rosa

Esse é o primeiro ano de Salmon na Porto da Pedra como carnavalesca, mas ela revela que foi na escola que começou no carnaval em 2003 como estagiária.

“A experiencia está sendo muito bacana, trabalhar com dificuldade financeira aflora mais a criatividade. O enredo tem uma temática maravilhosa e com uma mensagem linda de amor pelas nossas baianas. O desafio é, na crise, conseguir fazer carnaval”, disse.

A escola se apresenta com três alegorias e um tripé, e sai com 1,5 mil componentes. O diretor de carnaval do tigre, Júnior Cabeça, explica que o ponto alto do enredo é a homenagem às baianas, que são as verdadeiras mães do samba.

“Temos várias surpresas idealizadas pela nossa carnavalesca. Teremos surpresas na Comissão de Frente, nas alegorias e na Bateria junto com a comunidade. Ao fim do desfile, uma surpresa maior para fechar com chave de ouro e emocionar a todos presentes. Mesmo com toda dificuldade do Carnaval, a nossa expectativa é a melhor possível”, finalizou.

Fábio Montibelo, presidente da escola, esclarece que a Porto da Pedra recebeu apoio da comunidade e garante que o tigre vai entrar para disputar o título.

“A nossa comunidade é muito forte. Fizeram rifas e eventos que nos ajudou muito financeiramente. Nosso samba é bom, a Comissão de Frente com Carlinhos de Jesus é uma das melhores! Quesito a gente tem. Vamos rezar para não chover e na avenida tudo funcionar”, declarou.

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