quarta, 02 de dezembro de 2020

Hospital particular de Niterói é alvo de denúncias na pandemia

fachada do hospital são lucas, no barreto, em niterói
Funcionários denunciam condições de trabalho na unidade em Niterói. Foto: Marcelo Tavares

Um hospital particular, no Barreto em Niterói, entrou na mira do Conselho Regional de Enfermagem (Coren) por conta de denúncias envolvendo a falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI). O local será vistoriado esta semana, de acordo com o Conselho.

A unidade denominada Hospital São Lucas, situada nos limites de Niterói com São Gonçalo, é administrada pela operadora Assim Saúde, que atende cerca de 475 mil beneficiários de plano de saúde, de acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Com dez leitos de terapia intensiva e outros dez leitos ativados para suprir a demanda da pandemia, o hospital é a unidade referenciada que concentra pacientes de Covid-19 internados através da operadora no Leste Fluminense.

Apesar da reestruturação do hospital, o início da pandemia representou um desafio para os profissionais de Enfermagem que atuam na unidade. Com medo de retaliação, funcionários que contribuíram para a reportagem optaram por não se identificar.

Além da falta de EPI, os relatos dão conta de jornada exaustiva, acesso restrito a alimentação e alta no afastamento de profissionais, sem reposição.

A angústia no ambiente, de acordo com funcionários, aumentou após a morte de uma técnica de enfermagem com suspeita de contaminação na sexta-feira (1º), internada na própria unidade.

Escala

Pela denúncia, em 1º de abril, quando a curva de contágio começava a avançar em Niterói — então com 62 diagnósticos confirmados e um óbito — houve uma mudança na escala de trabalho.

Os técnicos de enfermagem, enfermeiros e algumas atividades auxiliares mudaram do plantão de 12 horas (com 36 horas de intervalo) para um plantão 24 horas (com 72 horas de intervalo).

Segundo informações, os EPIs são fornecidos na entrada do plantão: uma máscara N-95 (cirúrgica, para uso hospitalar), uma toca e um avental, ambos descartáveis. Não é fornecido protetor facial. A orientação geral do hospital é para economizar luvas.

Munidos desse equipamento, sem possibilidade de reposição, os profissionais adentram o centro de terapia intensiva, e de lá não podem sair até a jornada acabar, sob risco de infectar outras áreas do hospital.

Os 20 leitos do CTI são distribuídos entre dois andares. Em geral, há um enfermeiro e dois a quatro técnicos para cada andar. Entre um paciente e outro, o único local para descansar, segundo funcionários, é uma sala reservada para insumos médicos.

“Não há local de descanso e a comida do hospital chega fria. Estamos todos muito sobrecarregados”, desabafa um profissional da equipe.

Ainda de acordo com funcionários, a direção da unidade reitera os pedidos para redução do consumo de EPIs ao máximo.

“Temos que utilizar os equipamentos de proteção individual que são descartáveis durante um plantão de 24 horas”, relata outro funcionário.

Ao todo, dez profissionais de saúde teriam sido afastados com diagnóstico de Covid-19.

A operadora Assim Saúde, procurada, informou que ‘tem feito um esforço gigantesco para atender a todos os seus clientes dentro do melhor padrão de qualidade que ele foi acostumado’ e que segue fielmente aos protocolos estabelecidos tanto pelo Ministério da Saúde, quanto pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Sobre uso do EPIs, a operadora afirma que o uso do avental é feito de acordo com as recomendações técnicas dos órgãos regulamentadores, além do uso das luvas, com o cuidado para que não haja falta de qualquer equipamento de proteção, seguindo as mesmas rigorosas recomendações da Anvisa e negou que a unidade hospitalar esteja sofrendo com falta de EPIs.

Em relação ao questionamento sobre profissionais afastados, a Assim Saúde esclarece que de todos os suspeitos, apenas três tiveram resultados positivos e iniciaram tratamentos prontamente; Quanto a informação em relação a suspeita de uma funcionária ter falecido no último dia 1º, a operadora informa que o hospital não possui a confirmação do teste positivo da referida profissional, muito embora ela possua morbidades importantes.

Já com relação a troca de turno, a administradora da unidade confirma a alteração, mas contesta a denúncia alegando que houve acordo prévio de toda equipe envolvida e explica que o objetivo foi deixa-los em casa durante três dias seguidos, reduzindo ao máximo a exposição dos profissionais nos deslocamentos para o trabalho.

Fiscalização

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) já recebeu cerca de 4 mil denúncias envolvendo falta ou baixa qualidade dos EPIs durante a pandemia.

O órgão pontua que o problema está na raiz da alta contaminação entre a categoria: desde o início da pandemia, 27 profissionais da Enfermagem morreram e 3,2 mil foram afastados, entre casos suspeitos e confirmados.

Para o coordenador do Comitê de Crise de Cofen, Walkírio Almeida, a categoria, que está na linha de frente do combate, acaba exposta a um risco ainda maior sem os equipamentos adequados.

Os aventais de baixa gramatura, como os fornecidos pelo hospital, deveriam ser substituídos na periodicidade de 12 horas, explicou o enfermeiro. No entanto, a reutilização da máscara N-95 foi normatizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) durante a pandemia, para evitar escassez.

O uso dos equipamentos é estabelecido pela Norma Regulamentadora nº 32, da Secretaria de Trabalho do Ministério da Economia. O provimento de equipamento aos profissionais é garantido pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).

“O fator de proteção reduz ao longo do tempo de utilização do equipamento, especialmente quanto há exposição mais elevada” comentou o enfermeiro.

Ele explica ainda que os plantões de 24 horas, embora não sejam vedados por lei, exaure os enfermeiros e técnicos. O Cofen também considera a jornada de 12 horas inadequada e pressiona pela aprovação, na Câmara dos Deputados, de um projeto de lei regulamentando a jornada dos profissionais da enfermagem.

“O esgotamento físico e psíquico dos profissionais de enfermagem está num grau de intensidade muito maior, porque o número de atendimentos que eles tem prestado aumentou e precisam lidar com a insegurança de voltar para casa e expor familiares ao vírus”, destacou Almeida.

Com colaboração de Daniela Scaffo.

Publicada às 19h

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