quarta, 28 de outubro de 2020

O abismo salarial entre pretos e brancos nas cidades

Niterói ficou na quarta posição entre os 22 municípios pesquisados com maior diferença salarial. Foto: Pedro Conforte
Niterói ficou na quarta posição entre os 22 municípios pesquisados com maior diferença salarial. Foto: Pedro Conforte

O Rio é primeiro lugar quando o assunto é diferença salarial entre brancos e pretos. É o que revela a pesquisa divulgada pela Organização Não Governamental Casa Fluminense, com dados do Mapa das Desigualdades. A Capital aparece com 41,9% de diferença salarial, seguida por Japeri (31,6%) e Duque de Caxias (27,2%). Segundo o estudo liberado em agosto, Niterói também figura entre as primeiras posições no quarto lugar com 19%.

Nos municípios de Maricá e São Gonçalo a diferença é um pouco menor com 15,5% e 5,8%, respectivamente. A pesquisa mapeou 22 municípios da Baixada Fluminense e Região Metropolitana, também com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em âmbito geral, estudo mostra que o trabalhador formal e informal branco recebe 75% a mais do que pretos e pardos.

Para o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, em estudo sobre o racismo na economia, a equiparação salarial seria benéfica, inclusive para o desenvolvimento econômico do país.

“O negros têm maiores dificuldades em conseguir emprego e enfrentam condições adversas dentro das empresas, que não permitem que eles avancem até cargos mais altos. É um mercado com grande potencial de consumo. Se os negros recebessem salários iguais aos dos brancos, seriam injetados R$ 776 bilhões por ano na economia”

Ainda no que se refere a racismo, a instituição a qual Renato representa apresenta que pessoas negras têm a pior remuneração entre os brasileiros e a menor renda entre trabalhadores do sexo feminino, com ensino superior, é das mulheres negras. Os dados fazem parte do estudo “O desafio da inclusão”, com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).

Segundo a economista da Universidade Federal Fluminense (UFF), Hildete Pereira de Melo, que debate o tema há anos no Brasil, as diferenças se acentuam por conta do histórico do país em relação aos postos que os brancos sempre tiveram no decorrer da história.

“Esse aspecto [da desigualdade] se torna evidente quando nós analisamos sob o olhar da história. Os negros sempre tiveram desvantagem em relação aos brancos. No mercado de trabalho, há uma premiação aos brancos que mantêm essa desigualdade evidente”

Ainda de acordo a professora, a educação pode ser um dos motivos dessa diferença quando explica que: “Os brancos possuem supremacia sobre os negros em todos os níveis de escolaridade. Tanto nos que possuem pouco estudo, em média quatro anos, quanto nos que possuem ensino superior. Sobretudo em relação às mulheres negras, que são as mais afetadas nesse aspecto”.

Mudar é preciso

Segundo último censo divulgado pelo IBGE, a diferença salarial chega a 175%. Foto: Pedro Conforte

Para Manoel Alves Júnior, presidente em exercício da Câmara de Dirigentes Lojistas de Niterói (CDL), a CDL estimula o lojista a chamar a atenção para que não exista nenhum tipo de desigualdade por parte do comércio na cidade.

“A CDL desde sempre incentiva para que não haja desigualdade salarial e nenhuma outra forma de diferenciar negros e brancos. A gente defende que não ocorra qualquer tipo de discriminação. Como entidade representativa do comércio, nós combatemos qualquer coisa relativa a esse gênero, até porque nós queremos uma sociedade mais igual e mais justa”, ressaltou Manoel.

Segundo dados do IBGE de 2010, último censo do instituto divulgado sobre o tema em Niterói, um trabalhador que se declara branco ganha, em média, R$ 3.440,94, enquanto o trabalhador que se declara negro recebe R$ 1.253,66, exercendo a mesma função. Diferença de quase 175%.

A Prefeitura de Niterói informou que não há dados sobre o mercado de trabalho formal de Niterói a respeito da diferença salarial entre negros e brancos. No entanto, o Executivo destaca que foi criada a Coordenadoria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Ceppir), que atua na criação de políticas públicas para inclusão social com serviço de atendimento a pessoas vítimas de racismo e injúria racial, com orientação jurídica para encaminhamento aos órgãos competentes para a investigação e prosseguimento de eventual processo, além da realização de campanhas para conscientização de direitos.

Ainda segundo a prefeitura, Niterói conta com o Conselho Municipal de Igualdade Racial, com 11 representantes do governo e 11 da sociedade civil. O conselho atua na formulação, promoção e controle da execução de políticas públicas municipais que contemplem e assegurem a Igualdade Racial, inclusive nos aspectos econômicos e financeiros, nas estratégias e inserção social e garantia de direitos, de assistência nos casos de discriminação; garantia e fomento da igualdade, inserção social, econômica e político-cultural em toda a sua amplitude, no âmbito dos setores público e privado.

Com relação a desigualdade em São Gonçalo, a gestão do município informa que o número se dá por conta da ‘desigualdade no Brasil ser estrutural’ e que o país tem a segunda maior concentração de renda do mundo, onde 20% de toda a renda está nas mãos de apenas 3% de famílias brasileiras.

A prefeitura atribui a ausência histórica de planejamento urbanístico, durante os anos 80 e 90, aos maiores empregadores da cidade, em especial as indústrias, que resolveram deixar São Gonçalo.

Já a Prefeitura de Maricá enalteceu a classificação do município no estudo, ao considerar que várias outras cidades apresentaram números muito mais altos . Além disso, a assessoria de comunicação considerou o estudo inadequado para efeitos comparativos ao informar que ‘a despeito de sua importância e do esforço dos seus realizadores, o mapa tem conflito de informações que inviabiliza conclusões’.

Por fim a equipe de comunicação da Prefeitura de Maricá acrescenta que a cidade é inclusiva, com políticas públicas que combatem com grande eficiência a desigualdade em todos os níveis, em qualquer área. 

(function(i,s,o,g,r,a,m){i['GoogleAnalyticsObject']=r;i[r]=i[r]||function(){ (i[r].q=i[r].q||[]).push(arguments)},i[r].l=1*new Date();a=s.createElement(o), m=s.getElementsByTagName(o)[0];a.async=1;a.src=g;m.parentNode.insertBefore(a,m) })(window,document,'script','https://www.google-analytics.com/analytics.js','ga'); ga('create', 'UA-1023799-1', 'auto'); ga('send', 'pageview');

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *