quinta, 21 de janeiro de 2021

Seis meses da pandemia que cobriu o sorriso da cidade

População aguarda ansiosa a vacina. Foto: Pedro Conforte

A declaração de pandemia da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2), completou seis meses no último dia 11, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, o primeiro caso registrado foi um pouco antes, na Quarta-Feira de Cinzas, dia 26 de fevereiro. De lá para cá, muita coisa mudou. As relações sociais deram espaço para ambientes virtuais. O local de trabalho virou os cômodos de casa. E o planejamento do futuro se transformou em incerteza. Mas qual será o legado de toda essa experiência?

Para Lucia Novaes Malagris, professora da pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), já é possível observar os principais reflexos na sociedade após esse período. De acordo com a especialista, novas formas de interação têm surgido, valores têm sido revistos e prioridades repensadas.

“Observo o apego de muitas pessoas à religião e à espiritualidade, podendo haver uma valorização dessa área na vida das pessoas. Acredito que um legado é a valorização que as pessoas podem passar a dar à liberdade de ir e vir, aos contatos sociais, à empatia e à solidariedade. Uma questão importante são as modalidades de trabalho, presencial ou remoto, que têm se revelado como formas novas de relações profissionais e, penso, que especialmente nessa área, as mudanças vão ser muitas”, explica.

O home office virou realidade na vida do analista de operações , Gustavo Pacheco, de 30 anos. Trabalhando em casa desde março, ele conta que ganhou qualidade de vida e passou a ‘render’ mais para a empresa, uma vez que ganhou o tempo que outrora era perdido no trânsito.

“Consigo fazer praticamente tudo de casa, as poucas coisas a gente não consegue resolver e a gente agenda uma data específica para ir na empresa. Isso melhorou muito minha qualidade de vida, principalmente com relação ao transporte, que eu ficava em média quatro horas por dia no ônibus. Hoje eu ganho esse tempo para mim. Consigo dormir até mais tarde, fazer uma atividade física e, com isso, me sinto mais disposto para me dedicar o trabalho para a empresa”, contou o profissional, que mora no Mutondo, em São Gonçalo, e trabalha no Rio.

A psicóloga considera que o isolamento social provocou dois grandes impactos: a sensação de proteção, uma vez que foi divulgada como a principal estratégia de controle da pandemia, e o retorno de males como solidão, ansiedade, estresse, senso de impotência e, em muitos casos, depressão.

“O medo tomou conta de grande parte da população. Observo uma instabilidade emocional em que, em uma fase a pessoa se sente esperançosa e outra revoltada, com raiva e sem esperança de que haverá solução a curto ou médio prazo. Mesmo com a possibilidade de sair desde que tome medidas de proteção, algumas pessoas estão dominadas pelo medo e se sentem mais seguras no isolamento. Outras, negam a seriedade da doença e estão se comportando como se não houvesse mais risco. Os dois modos de lidar são radicais e ambos podem trazer malefícios para o indivíduo”

Circulação restrita

Circulação de ônibus intermunicipal foi proibida na Ponte Rio-Niterói. Foto: Marcelo Tavares / Arquivo

O estado do Rio de Janeiro foi um dos primeiros a decretar medidas de restrição de circulação da população para evitar a contaminação em massa da doença. O dia 13 de março, sexta-feira, foi uma data marcante, quando o governador Wilson Witzel (PSC) determinou a suspensão das aulas – inicialmente antecipando férias escolares -, fechamento de cinemas, teatros e aparatos culturais, além de sinalizar uma possível interdição de praias em todo o território fluminense.

Ao longo da semana subsequente, novas medidas foram incorporadas como fechamento de comércios e atividades econômicas. Mas uma das mais impactantes, principalmente dos moradores de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá foi a proibição dos ônibus intermunicipais em direção ao Rio.

O decreto ficou em vigor do dia 19 de março até o dia 6 de junho. A técnica em certificação digital, Juliane da Costa, de 24 anos, foi uma das profissionais afetadas pela medida. Moradora de São Gonçalo, ela utilizava o transporte público para chegar até o trabalho, que foi considerado como ‘serviço essencial’ durante a pandemia. Com a vedação da passagem de coletivos na Ponte Rio-Niterói, ela precisou mudar o trajeto e dobrou o número de conduções.

“Antes eu ia pegava o ônibus perto da minha casa e descia diretamente no trabalho. Com a restrição, passei a pegar ônibus até a estação de barcas, no Centro de Niterói, e andava um trecho maior até o trabalho”, explicou.

Lockdown

Acessos a Niterói foram controlados. Foto: Pedro Conforte / Arquivo

Apesar das duras medidas do Governo do Estado, foi dentro dos municípios que as restrições passaram a ficar mais intensas. Em abril, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu descentralizar a determinação de regras em razão da pandemia do coronavírus, dando autonomia para tomada de decisões para estados e municípios.

Niterói foi a primeira cidade do Estado a apertar o cerco em favor do isolamento social. No dia 11 de maio, um decreto do prefeito Rodrigo Neves (PDT) proibia a permanência a circulação de pessoas nas ruas do município, sem que elas estivessem em deslocamento para o trabalho ou para consumir atividades essenciais (como mercados, padarias, postos de combustíveis, farmácias e petshops).

A cidade também foi a primeira a registrar morte pela doença em todo o estado, no dia 17 de março. Um homem, de 69 anos, foi a primeira vítima da Covid-19, após ter contato com uma pessoa infectada. Ele faleceu em uma unidade particular de saúde de Niterói. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, o primeiro óbito confirmado foi no dia 12 de março, em São Paulo, de uma mulher, de 57 anos.

Novo normal

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Novos hábitos e rostos cobertos na rotina do carioca. Foto: Pedro Conforte

A nova realidade impôs uma série de mudanças nos hábitos de higiene. O álcool em gel virou item indispensável, assim como a obrigação do uso de máscaras, inclusive as produzidas artesanalmente. Em diversas cidades, como Niterói, a falta do equipamento na circulação nas ruas foi motivo para aplicação de multas.

A recomendação válida em todo o território nacional até então havia sido expedida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no dia 3 de abril. Para o infectologista e coordenador de Controle e Infecção Hospitalar (CCIH) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe-Uerj), Marcos Junqueira Lago, a máscara caseira é um importante aliado para evitar a transmissão do coronavírus.

Para Lago, além do caráter sanitário para evitar a propagação desacelerada do vírus, o equipamento também tem uma função psicológica de reprimir o toque das mãos no nariz e na boca.

Perspectiva

A psicóloga Lucia Novaes Malagris projeta, para o novo normal, que na medida que a pandemia for sendo controlada e a vacina surgir, as pessoas vão aos poucos voltando ao modo de interagir socialmente habitual. No entanto, a especialista acredita que haverá maior valorização do contato com amigos e familiares para aqueles que estão sem essa possibilidade. Em outra vertente, ela também crê que os encontros virtuais vieram para ficar.

“É preciso aceitar que é uma crise, sim, mas que não vai durar para sempre, pois os tratamentos estão evoluindo e a possibilidade da vacina parece cada vez mais perto. Aceitar, mas não passivamente. Temos que aceitar entendendo o que está acontecendo e procurando agir de modo a se proteger não só do vírus, mas também do estresse, da ansiedade e da depressão. É importante uma adaptação a esse momento, se ajustar à realidade”

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