sábado, 05 de dezembro de 2020

Umbanda celebra 112 anos de fé e resistência

Rituais na pandemia precisaram ser adaptados. Foto: Marco Alcântara / Coletivo Kobá / Divulgação

Desde o anúncio em 1908 do Caboclo das Sete Encruzilhadas, incorporado no médium Zélio Fernandino de Moraes, dentro de um casarão no bairro de Neves, em São Gonçalo, o dia 15 de novembro passou a ser considerado um marco na história e na memória dos praticantes da Umbanda. Ao longo desses 112 anos, a religião afro-brasileira se popularizou em todo o país e estima-se que, apenas na cidade, existam mais de cinco mil terreiros que cultuam a crença, de acordo com a Comissão de Matrizes Africanas (Comasg).

Com papel fundamental de promover a caridade e prestar assistência para quem bate à porta, as sessões abertas sofreram mudanças dentro dos terreiros no período de pandemia da Covid-19. Algumas unidades optaram por suspender as atividades religiosas, outras decidiram restringir os trabalhos a reuniões internas, com poucos médiuns e cumprindo protocolo de distanciamento, além do uso de álcool em gel. Um desses espaços foi a Casa de Caridade Vovó Maria Conga do Cruzeiro (CCVMCC), no Jardim Bom Retiro.

“A umbanda não é estática, ela é movimento”.

Maria da Gloria Moraes, dirigente da Casa de Caridade Vovó Maria Conga do Cruzeiro (CCVMCC)

O terreiro completou 25 anos no último dia 27 de setembro, data em que é celebrada a gira especial às crianças (Ibeji, Ibejada e Erês), sincretizada por São Cosme e São Damião. Para a dirigente Maria da Glória Moraes, de 68 anos, que já cultua a crença há mais de 40 anos, é possível identificar mudanças tanto na percepção das pessoas leigas com relação à religião, quanto transformações dentro dos próprios espaços e queda de uma série de tabus e mistificações.

“Muita coisa mudou desde que o Caboclo das Sete Encruzilhadas anunciou a criação. E acredito que vai mudar ainda mais. A umbanda não é estática, ela é movimento. Muitos dogmas caíram, muitas crendices e superstições deixaram de existir. Hoje as pessoas sabem que existe a lei do retorno e o livre arbítrio. A sua colheita será conforme o seu plantio. Quem procura conhecer e entender a Umbanda acaba se apaixonando, pois ela nos dá respostas a grande maioria das nossas perguntas”, explica a dirigente.

'A Umbanda é paz e amor
É um mundo cheio de Luz
É força que nos dá vida
E a grandeza nos conduz
Avante, filhos de fé
Como a nossa lei não há
Levamos ao mundo inteiro
A bandeira de Oxalá'
(Hino da Umbanda)

O presidente da Comasg, o babalorixá Gilmar de Oyá, de 43 anos, revela que, no período mais grave da pandemia, o pedido mais recorrente dos terreiros gonçalenses à comissão foi por socorro. Segundo ele, que também é dirigente do Terreiro Santa Bárbara do Bom Retiro (Egbé Ilè Àsé Oloyá Torun), muitas unidades em São Gonçalo estão localizadas em regiões carentes e em comunidades conflagradas pela violência, sendo a principal fonte de renda das casas a atividade de consultas.

“Sem atendimentos, sem consultas, caíram as doações e a maioria dos terreiros de São Gonçalo são em regiões periféricas. Foi um momento de muita crise dentro dos espaços, que aos poucos tiveram que retomar atividades, com todos os cuidados. A cultura da Umbanda é de abraço é de ‘bença’, precisaram fazer toda essas mudanças”, descreveu.

Ainda de acordo com Gilmar, a maior batalha travada pelos terreiros gonçalenses é para tentar fazer a formalização institucional das casas. Segundo o babalorixá, não há abertura do caminho jurídico para que os espaços, que já são legalizados, obtenham os mesmos direitos concedidos a outras religiões na cidade.

“A gente vem lutando há cinco anos para formalização dos terreiros. A maioria dos espaços são em locais pobres onde o estado não chega. A gente não detém direitos por não ter caminho para chegar à formalização. Somos invisibilizados com a alegação de que não existem muitos terreiros. Mas não tem como mostrar um quantitativo para os governantes, se não conseguimos formalizar. O que existe é um plano hegemônico de poder dos pentecostais para apagar a memória da religião para que a gente não possa lutar, pedir, demandar e construir política pública”, completou.

112 anos

Para o professor e historiador, Luciano Campos Tardock, que estuda a memória de São Gonçalo, o dia 15 de novembro marca o anúncio da Umbanda e não sua fundação. Segundo o pesquisador, o que o médium Zélio de Moraes destacava era que existia a necessidade de outros tipos de entidades, ‘que eram vistas como inferiores’, mas que também pudessem fazer caridade.

“Precisamos ter em mente que manifestações de pretos-velhos, caboclos e exus já aconteciam. Sobre a questão da Umbanda ter algum tipo de influência histórica e social na cidade, acredito que seja pequena. Os umbandistas em geral reconhecem essa questão mas, a cidade como um território histórico muitas vezes ignora isso, até mesmo por conta de um fundamentalismo religioso que se instaurou dentro da politica”, analisa.

“O dia 15 de novembro marca o anúncio da umbanda e não sua fundação”

Luciano Tardock

De acordo com Tardock, a invisibilidade detalhada pelo presidente da Comasg tem fundamento no racismo intitucionalizado no município de São Gonçalo, considerado o berço de criação da religião. Para mudar a narrativa e construir uma nova história, segundo o historiador, é preciso promover debates, diálogos e, ‘principalmente, ter boa vontade’.

“A questão da invisibilidade é horrível por si só. Um tipo de racismo que destrói a origem do município. São Gonçalo é uma cidade que não cuida em nada de sua história e memória. Falta debate, diálogo e principalmente boa vontade do poder público em resgatar o que for possível da história da cidade”

Preconceito

Oferenda para Exus e Pomba-Giras no Centro de Umbanda Mística Oxum Apará, em Salvador. Foto: Marco Alcântara / Coletivo Kobá / Divulgação

Fundado há mais de um ano em Niterói, o Coletivo Kobá – Comunicação Afro-religiosa tem como principal objetivo valorizar as culturas ancestrais derivadas das religiões de matrizes africanas, entre elas a Umbanda. Um dos fundadores é o niteroiense e jornalista Gabriel Sorrentino, de 24 anos, iniciado no culto desde os seis anos de idade. Para o jovem, mais do que pedir por tolerância, os praticantes gritam por respeito.

“A gente hoje como umbandista tem o dever de mostrar que ainda existe perseguição religiosa a todos os cultos de matrizes africanas. A gente precisa desestruturar esse racismo religioso porque quando eu sofro, as pessoas não estão ofendendo a mim, que sou homem branco. Mas sim a todos que morreram para manter viva a Umbanda. A religião dá espaço para todos aqueles espíritos que foram marginalizados e que hoje prestam caridade”

De acordo com dados da Superintendência de Igualdade Racial e Diversidade Religiosa, da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos (SEDSODH), em 2019, foram atendidos 132 casos de violações a espaços religiosos. Destes, 102 ataques foram direcionados às religiões de matriz africana e duas violações ao espiritismo.

Segundo o levantamento da pasta, religiões como catolicismo, protestantismo, rituais religiosos ligados a wicca (bruxaria) e ecumenismo (busca de uma prática universalista) receberam, cada uma, um registro de violação. Em 23 casos a religião não foi declarada pelas vítimas.

Democratização

Canal desmistifica a aproxima leigos à religião. Foto: Tânia Rêgo / EBC

Como forma de combater o preconceito e a desinformação a respeito da Umbanda, dois sócios publicitários de São Paulo decidiram fundar o portal Umbanda Eu Curto, um dos maiores do segmento, que já acumula quase 320 mil seguidores apenas no Facebook. Segundo um deles, Alexandre Negrini, de 45 anos, a oralidade do culto ainda gera uma mistificação, como se determinados rituais não pudessem ser explicados.

“As pessoas confundem tudo, quando veem algum elemento colocado numa esquina, que as vezes não é de religião nenhuma, aí colocam tudo no mesmo pacote. Nossa função é oferecer mais informação para as pessoas, que precisam entender o que é o Caboclo, de onde ele veio. As pessoas tinham internamente essas questões e não tinham onde eu perguntar. A democratização da Umbanda passa por aí, em utilizar uma linguagem mais rápida e popular para atingir um público cada vez maior”

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