domingo, 29 de novembro de 2020

O abraço que não foi dado

Famílias vivem o drama social de eventualmente despedirem-se de seus amores. Foto: Divulgação

Vivemos tempos de angústias e incertezas em relação ao presente e futuro.

Não há consenso sobre a melhor forma de enfrentar a pandemia de Covid-19 que nos atingiu, levando-se em conta todos os aspectos, seja quanto a necessidade ou não de confinamento ou seu melhor modelo, restrição de atividades com severas consequências nas relações pessoais, nos projetos das pessoas e no futuro imediato de nossa economia.

Há ainda o temor quanto ao risco de contaminação e a gravidade ou consequências da doença para nós mesmos e nossos familiares ou amigos.

Diante de tudo isso, o que mais comove é o drama do isolamento e da solidão do paciente que apresenta sintomas em sua forma grave e necessita de internação.

Passei os últimos anos de minha vida profissional trabalhando em projetos de humanização do processo da terminalidade da vida. Desenvolvendo protocolos para dar conforto e prestar cuidados paliativos com dignidade a pacientes no momento derradeiro de suas vidas.

Estes cuidados incluem ações de natureza física, social, emocional e espiritual e trazem para o paciente e para sua família, bem estar, tranquilidade, conforto, possibilidade de amadurecer e entender o momento da partida com proximidade, despedida, perdão, arrependimentos, reconciliação e realização de últimos desejos.

Esse processo prepara para a desfecho morte e propicia evolução espiritual.

Pois bem…. tratamos agora da situação oposta.

Pacientes vítimas da Covid-19 em sua forma mais grave que requer internação e suas famílias, vivem o drama social de eventualmente despedirem-se de seus amores, pais, filhos, no momento da sua internação.

A partir daí instala-se a separação e a incerteza quanto ao seu retorno. As visitas são proibidas. O contato com qualquer pessoa de seu relacionamento só vai voltar a ocorrer em caso de evolução para cura.

Pacientes internados lúcidos, aguardam pela evolução favorável da doença para que possam voltar a rever seus entes queridos.

Também não os tem próximos para dar suporte e acalentar suas dores e medos.

O pedido de perdão, a reconciliação, o último gesto de carinho, pode não ocorrer.

Ver o rosto de um filho, pai ou mãe pela última vez pode ter ocorrido dias antes da partida. Nem mesmo o costumeiro carinho da equipe de saúde durante a internação podem ocorrer, pois os cuidados têm que ser efetuados com o máximo de distanciamento e mínimo de contato pelo necessário e rigoroso cuidado com a contaminação que devem ser priorizados.

O último abraço pode não ter sido dado.

Triste para quem partiu, irreparável e inesquecível para quem ficou.

Em tempos de falta de consenso quanto aos riscos de contaminação, de pouco conhecimento sobre a evolução da doença assim como seu tratamento e ainda distante a certeza de medicamentos para cura e disponibilidade de vacina, escolham o caminho mais conservador.

Protejam-se assim como aos seus e aos outros.

Nenhum bem material é mais importante que a vida.

Lembrem-se:

Essa doença pode impedir o último abraço.

Doutor Raphael Riodades é médico pela Universidade Federal Fluminense (UFF) com atuação em Ginecologia e Nutrologia, também especializado em Gestão de Saúde.

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