sexta, 16 de abril de 2021

A linha tênue entre ressocialização e a impunidade

Bruno foi contratado pelo Atlético Carioca. Foto: Reprodução de vídeo

O que vale e o que não vale em uma ressocialização? A pessoa está perdoada ao terminar de cumprir sua pena? Existem crimes inaceitáveis perante a sociedade?

Todos esses questionamentos fazem parte de um debate complexo e delicado envolvendo futebol, criminalidade e idolatria – que volta à tona com a contratação do goleiro Bruno Souza para o elenco do Atlético Carioca, de São Gonçalo.

Sou totalmente a favor da ressocialização. Acho que, num mundo ideal, todos têm direito a uma segunda chance. Por outro lado, não acredito que o meio futebolístico seja o caminho ideal.

Futebol mexe com paixão, cria ídolos, alça pessoas comuns ao posto de referências. Não à toa, os salários são totalmente fora da realidade das outras profissões. O jogador não é um profissional como os outros.

Bruno foi condenado por matar e esquartejar a atriz e modelo Eliza Samúdio. Um crime bárbaro, no qual seus restos mortais até hoje não foram localizados para uma despedida minimamente digna a sua família.

Em regime semiaberto, mesmo sem ter cumprido toda a pena, Bruno deveria ter acesso à ressocialização, mas não no futebol; em algum emprego simples, longe dos holofotes da bola, recebendo um salário compatível com a situação.

E nem precisamos ir tão longe. O também goleiro Jean, do Atlético-GO, acertou oito socos na cara da esposa. A carreira seguiu, o público perdoou (ou esqueceu), o futebol aplaudiu suas atuações – e agora ele negocia uma ida ao exterior. Será justo?

Em conversas divulgadas pela esposa agredida, o goleiro sequer mostrava arrependimento. “Parabéns, você acabou com a minha carreira”, teria dito ele na troca de mensagens. Antes fosse. Na prática, os clubes relativizaram e a vida seguiu. Pelo menos para ele.

Muitos clubes têm acompanhado a onda de postagens em defesa das mulheres, na luta contra o racismo ou até mesmo em fortes posições contra a volta do futebol durante a pandemia. Na prática, tem sido diferente.

O Bahia, clube de posicionamento sempre imponente pelas causas sociais, fez vista grossa às possíveis ofensas racistas ao meia Gérson, do Flamengo. O caso foi abafado e os baianos afirmaram que, segundo o laudo da perícia encomendada pelo clube, nada de irregular foi constatado.

A chegada do goleiro Bruno ao Atlético Carioca nada mais é do que um clube tentando ganhar visibilidade através da polêmica – sem se preocupar com qual mensagem passará ao público.

O futebol é incrível, mágico, popular e democrático. O futebol cria ídolos, projeta lendas e influencia na vida de milhões de pessoas. Jogadores são referências para adultos e espelhos para crianças.

Não há espaço para maus exemplos. Em meio à tragédia, o futebol também é fuga. Não pode ser palco para a capitalização da tragédia. O tratamento de estrela, que já pôde ser visto ao atrair centenas de pessoas para uma simples pelada com a presença de Bruno, vai no caminho oposto à pena de mais de 20 anos imposta pela Justiça.

A resenha está garantida com o jornalista Pedro Chilingue, que além dos bastidores do mundo esportivo, também traz o melhor dos torneiros regionais.

A resenha está garantida com o jornalista Pedro Chilingue, que além dos bastidores do mundo esportivo, também traz o melhor dos torneiros regionais.

(function(i,s,o,g,r,a,m){i['GoogleAnalyticsObject']=r;i[r]=i[r]||function(){ (i[r].q=i[r].q||[]).push(arguments)},i[r].l=1*new Date();a=s.createElement(o), m=s.getElementsByTagName(o)[0];a.async=1;a.src=g;m.parentNode.insertBefore(a,m) })(window,document,'script','https://www.google-analytics.com/analytics.js','ga'); ga('create', 'UA-1023799-1', 'auto'); ga('send', 'pageview');