domingo, 25 de outubro de 2020

Caso João Pedro: Polícia cobra participação da Defensoria

João Pedro foi morto durante ação da Polícia Federal no Complexo do Salgueiro.  Foto: Arquivo / Pedro Conforte
João Pedro foi morto durante ação da Polícia Federal no Complexo do Salgueiro. Foto: Arquivo/ Pedro Conforte

Após a Defensoria Pública do Rio questionar a competência da Polícia Civil para investigar a morte de João Pedro, em São Gonçalo, o titular da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNISG), Allan Duarte, convidou nesta segunda-feira (25) o próprio Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública; e o Ministério Público do Rio a trabalharem em conjunto com a especializada, a fim de garantir a resolução do caso.

Segundo o delegado, o objetivo é garantir uma investigação imparcial na elucidação dos fatos. O questionamento da Defensoria foi feito em reportagem veiculada pela TV Globo, na noite deste domingo (24).

“A Polícia Civil se coloca à disposição das duas instituições para trabalhar em conjunto no inquérito, para que todas as pessoas sejam ouvidas em sede policial, acompanhadas da presença do defensor público e do promotor do Gaesp. A gente quer realizar todas as diligências com a presença deles aqui”, explicou o delegado.

Ainda segundo Duarte, a especializada já fez contato com o Ministério Público solicitando a participação no inquérito.

A reprodução simulada dos fatos, popularmente conhecida como reconstituição de crimes, que será feita na casa onde ocorreu a morte de João Pedro, na comunidade do Salgueiro, em São Gonçalo, ainda não tem data para acontecer. O adolescente foi morto na tarde do último dia 14 durante ação da Polícia Federal na região.

“Precisamos primeiro ouvir a família e pessoas que estiveram na casa no momento dos fatos para, posteriormente, podermos fazer um planejamento estratégico e conseguir fazer a simulação. O inquérito foi instaurado no dia do fato e temos até 30 dias para fazermos essa diligência”, declarou o delegado.

Depoimentos

 Familiares deverão prestar depoimento essa semana. Foto: Ibici Silva
Familiares deverão prestar depoimento essa semana. Foto: Ibici Silva

Na manhã desta segunda-feira (25), o médico bombeiro que participou do socorro de João Pedro, do Serviço Aeropolicial da Polícia Civil (Saer), da Lagoa Rodrigo de Freitas, foi ouvido na distrital.

À Polícia, ele contou que foi acionado por volta das 15h15 para aguardar a chegada do adolescente. O militar, que não teve o nome divulgado, foi o primeiro a realizar a abordagem ao jovem ainda na aeronave.

“O bombeiro é cardiologista intensivista, com especialização em terapia intensiva, e disse que constatou que não havia sinais vitais em João Pedro ainda na aeronave. Ele [o bombeiro] ainda contou que desde 2009 trabalha lá [no Saer] e já presenciou algumas vezes policiais civis, quando baleados em confronto, levados para lá. Esse é o protocolo adotado”, explicou Duarte.

De acordo com o delegado, o adolescente teria sido socorrido pelos policiais em um carro particular, que estava estacionado na rua do ocorrido, e levado até o campo de pouso onde estava a aeronave, que seguiu com João Pedro para a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Segundo o Corpo de Bombeiros, posteriormente o corpo foi encaminhado para o Posto Regional de Polícia Técnica e Científica de São Gonçalo, após acionamento por parte da Delegacia de Polícia, conforme prevê o protocolo para ocorrências deste tipo.

“A corporação e a Defesa Civil do Estado se solidarizam com familiares e amigos da vítima”, diz a corporação.  

A DH irá colher novamente os depoimentos dos três policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) diretamente ligados ao confronto que vitimou João Pedro.

“Iremos ouvir esses policiais para esclarecer alguns pontos. As próximas diligências serão ouvir familiares e pessoas que estavam na casa para confirmar ou não se houve confronto”, declarou o delegado.

Conduta

Assim como João Pedro; Ágatha Félix, de 8 anos, Kauê Ribeiro dos Santos, de 12 e Kauan Rosário, de 11 anos, são nomes de outras crianças que morreram durante operações policiais desde o mesmo período do ano passado. O levantamento é da ONG Rio de Paz.

Segundo o especialista em segurança pública e presidente do Instituto de Criminalística e Ciências Policiais da América Latina (Inscrim), José Ricardo Bandeira, é inadmissível que este tipo de conduta policial continue sendo praticado.

“Essas condutas são inadmissíveis, sobretudo com o incentivo do Governo que tem como política de segurança pública o enfrentamento policial em detrimento das mortes de vítimas inocentes”, informou.

Para José Ricardo, os moradores das comunidades vivem em áreas dominadas pelo crime organizado e oprimidos pelo poder policial, sofrendo pressão dos dois lados, ora precisam se precaver contra a crueldade do crime organizado, ora da atuação de policiais que não respeitam os seus direitos, correndo um grande risco ao denunciar uma das partes envolvidas na guerra que se trava no dia a dia do Estado.

“Não existem números exatos que quantifiquem esses tipos de casos [de violência policial], sendo que somente os de maiores repercussão chegam à grande mídia, estando certamente ocultos a maioria dos casos que acontecem nas comunidades”, explicou o especialista.

José Ricardo, especialista em segurança pública e presidente do Inscrim

Esse tipo de caso ainda promove um conflito de interesses entre o próprio tráfico de drogas que comanda a localidade, segundo Bandeira.

“Os chefes do tráfico reagem segundo os seus próprios interesses não se importando com o bem estar do cidadão, usando o acontecido como forma de impedir que a policia realize outras operações na região, através do incentivo à manifestações dos moradores. Já os moradores, como foi dito, estão entre os dois lados desta guerra sendo o ponto mais frágil e as maiores vitimas desta crueldade”, finalizou.

Publicada às 15h14

(function(i,s,o,g,r,a,m){i['GoogleAnalyticsObject']=r;i[r]=i[r]||function(){ (i[r].q=i[r].q||[]).push(arguments)},i[r].l=1*new Date();a=s.createElement(o), m=s.getElementsByTagName(o)[0];a.async=1;a.src=g;m.parentNode.insertBefore(a,m) })(window,document,'script','https://www.google-analytics.com/analytics.js','ga'); ga('create', 'UA-1023799-1', 'auto'); ga('send', 'pageview');

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *