terça, 27 de outubro de 2020

Cena de pós-guerra no local onde João Pedro foi morto

Liderança comunitária da Trindade, conhecido como Tchetcheco, filmou a casa onde João Pedro estava. Foto: Reprodução/BQlândia

João Pedro Matos Pinto, de 14 anos, foi vítima de uma guerra a qual não pertencia. A mesma marca que atingiu a barriga do estudante, na tarde de segunda-feira (18), continua espalhada nas paredes da residência, que outrora era utilizada para o lazer, na Rua Expedicionário Geraldo Rosa, no bairro Itaoca, que compõe o Complexo do Salgueiro em São Gonçalo. Moradores denunciam que 71 tiros atingiram o imóvel durante a operação da Polícia Federal, com apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core).

“Contamos buraco, por buraco”, diz a presidente da Associação de Moradores de Itaoca, Jack Silva. Ela, junto com outra liderança comunitária do bairro da Trindade, conhecido como ‘Tchecheco’, estiveram na casa na noite desta terça-feira (19) e gravaram em vídeo a quantidade de perfurações encontrada no imóvel, onde o adolescente morreu.

De acordo com os moradores, João Pedro estava na companhia dos primos e amigos no quintal de casa, quando foram surpreendidos pelos tiros.

“O João morreu aqui, perdeu sua vida aqui. É muito tiro. Essa família está acabada, destruída. Itaoca está destruída. A dor de uma mãe é a dor de todas nós. Isso não pode ficar impune”

Jack Silva, presidente da Associação de Moradores de Itaoca

Segundo a família, o adolescente morava mesmo é na Travessa Adelina, próxima de onde tudo aconteceu. Em um áudio, publicado por familiar nas redes sociais, um primo de João – presente no momento dos tiros – conta como tudo aconteceu dentro da casa.

Áudio do primo de João Pedro

O corpo foi removido para o Instituto Médico Legal (IML), em Tribobó, em São Gonçalo, pelo rabecão da Defesa Civil estadual. No entanto, o paradeiro do jovem após ser atingido na operação foi ocultado da família por pelo menos 16 horas — entre o resgate por helicóptero e a localização do corpo no IML.

O inquérito da morte de João Pedro está sob os cuidados da Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DHNSG). De acordo com a Polícia Civil, a especializada já recebeu depoimento de testemunhas, apreendeu o armamento utilizado para confronto balístico e periciou a área da operação. Em reportagem divulgada pela TV Globo, o delegado Allan Duarte, titular da Distrital informou ainda que os pilotos do helicóptero que transporto João Pedro também serão ouvidos. Sobre o caso, a PF informou que acompanha o inquérito e dará apoio para a elucidação dos fatos.

No entanto, questionada a Polícia Civil ainda não informou se a contagem de marcas de tiros confere com a oficial.

ONU

Nesta terça-feira (19), a deputada Renata Souza, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio, e o deputado federal Marcelo Freixo (ambos do PSol), denunciaram à Organização das Nações Unidas e à Organização dos Estados Americanos o assassinato de 14 moradores de favelas em megaoperações policiais no estado do Rio em menos de uma semana.

A representação enviada à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, para o alto Comissariado para Direitos Humanos e para a relatoria Especial sobre Execuções Sumárias da ONU pede que sejam tomadas todas as medidas cabíveis para a responsabilização de todos os envolvidos no caso de João Pedro, e a não-repetição de violações em favelas e periferias.

“Neste momento de pandemia, nosso principal inimigo deveria ser o coronavírus, o Estado deveria levar para as favelas e periferias ações hospitalares e sociais que garantam a cidadania nestes locais. Precisamos entrar com mais cidadania e menos fuzis. Em nenhum estado de emergência admite-se a flexibilização ou a relativização dos direitos fundamentais à vida e à integridade pessoal, em especial quando se trata de um período de dedicação à manutenção das vidas e do cuidado em saúde. Este fato deve ser considerado na avaliação da inevitabilidade das incursões policiais, já que, em um período de pandemia, a vulnerabilidade social da população tende a aumentar”, afirma a deputada Renata Souza.

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