quinta, 01 de outubro de 2020

Denúncia de racismo no Extra de São Gonçalo

Negro, racismo,
Bernardo foi vítima de racismo no último dia 18. Foto: Pedro Conforte

Uma ida ao supermercado para comprar ingredientes para fazer o bolo do próprio aniversário ‘azedou’ os planos do ator e confeiteiro Bernardo Marins, de 20 anos, no último dia 18. O morador do Galo Branco acusa a unidade do Extra de Alcântara de racismo, após um segurança segui-lo por todo o período que esteve no mercado e chamá-lo de ‘ladrãozinho’.

A defesa do estudante de gastronomia entrou com um requerimento de instauração de inquérito nesta segunda-feira (24), na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), no Centro do Rio. Segundo a advogada do caso, Danielle Coutinho, o jovem vai prestar depoimento na quarta-feira (26).

“Pelo Bernardo ser um homem negro e estar de máscara, que não deixa parte do rosto visível, torna-se o esteriótipo do negro que a sociedade faz. O segurança teve a percepção de que ele entrou para assaltar, que não iria comprar alguma coisa. Foi uma percepção muito infeliz, e, juridicamente, ele cometeu sim crime de racismo e isso é inquestionável”, disse a advogada.

Apesar do caso estar sendo investigado pela polícia, os momentos classificados como de humilhação não saem da cabeça do jovem. Segundo Bernardo, todos os anos ele descolore o cabelo próximo do aniversário para celebrar a data. Com a pandemia do novo coronavírus, ele não pretendia organizar uma confraternização, mas foi convencido pela mãe.

“Eu já tinha comprado chantilly numa loja próxima e entrei só para comprar leite condensado e leite em pó, que estavam faltando para o meu bolo. Mas percebi que assim que entrei, o segurança da porta da loja veio atrás de mim. Ele falava no rádio: ‘vê nas câmeras se ele colocou alguma coisa dentro da sacola’. Ele falava alto como se quisesse me coagir. Me senti muito desrespeitado. Quando cheguei no caixa, me informei sobre como acionar o gerente, mas foi pior do que antes”, disse.

O confeiteiro alega que o gerente tentou minimizar a situação, dizendo ser ‘coincidência’ o segurança andar próximo a ele. O jovem conta que aceitou a justificativa e se encaminhou para fora do mercado, quando foi vítima de novos insultos.

“Indo embora, o segurança passou do meu lado e me chamou de ladrãozinho. Perguntei se ele estava com algum problema comigo e ele respondeu: ‘você acha que eu sou cego?’. Nós discutimos e eu exigi que ele me revistasse, já que eu supostamente tinha roubado. Foi quando o gerente falou: ‘você frequenta o mercado? ele pode ter marcado o seu rosto’. Eu saí chorando de lá e, naquele momento, meu aniversário acabou”, relembra.

Abalado com a situação, Bernardo conta que a primeira providência foi retomar a coloração mais escura no cabelo. Em seguida, ele procurou a Delegacia de Alcântara (74ª DP) para efetuar o registro de ocorrência, mas não conseguiu atendimento presencial. O confeiteiro afirma que pretende ir até o fim do processo para que o mesmo não aconteça com outra pessoa.

“Ser negro no Brasil é uma cruz pesada que parece que vamos carregar para sempre. Não importa se você tem dinheiro, fama ou o quanto você é admirado. Sempre vai ser pesado, sempre vai ser difícil, porque as pessoas não olham como um ser humano normal, olham com julgamentos. Creio que um dia isso vai mudar, mas só se a gente lutar, por isso faço questão de ir até o final. Precisamos que isso acabe”, afirmou.

Procurado, o hipermercado Extra informou que “tão logo tomou conhecimento sobre o ocorrido, no dia 19 de agosto, acionou imediatamente a loja de Alcântara, iniciando assim um processo interno de apuração. A empresa conseguiu contato com o cliente Bernardo no último dia 20 para se desculpar pela situação vivenciada por ele na loja e incluí-lo no processo de averiguação dos fatos. Até que este processo seja concluído, a rede optou pelo afastamento temporário do funcionário citado pelo cliente”.

O mercado afirmou ainda, em nota, que não orienta os funcionários para qualquer tipo de atitude discriminatória ou desrespeitosa, inclusive condena a mesma em seu Código de Ética e na política de diversidade e direitos humanos da rede.

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