domingo, 25 de outubro de 2020

Médica que atua em Niterói é espancada após denunciar ‘Festa do Corona’ no Rio

A anestesista e intensivista Ticyana Azambuja, de 35 anos, teve o joelho esquerdo quebrado e as duas mãos pisoteadas. Foto: Arquivo Pessoal

Após denunciar a ‘Festa do Corona’, que ocorria em uma rua do Grajaú, Zona Norte do Rio, no último sábado (30), uma médica anestesista com atuação em Niterói, Ticyana Azambuja, de 35 anos, teve o joelho esquerdo quebrado e duas mãos pisoteadas por pelo menos cinco homens que frequentavam o evento proibido — uma vez que às recomendações de distanciamento social para evitar o avanço do novo coronavírus permanecem em vigor no Estado.

Devido às pancadas, ela está fazendo uso de moletas e há possibilidades de ter que operar o joelho. “Está tão machucado que na tomografia não deu para ter certeza. Mas parece ter rompido o ligamento cruzado posterior. Vou ficar algum tempo sem trabalhar. Ninguém vai pagar por isso”, lamentou a médica.

Ticyana se mudou temporariamente para a casa do pai, que fica numa região distante, por medo de represálias. Ela explicou que esteve na Delegacia de Vila Isabel (20ª DP) na tarde desta segunda-feira (1º).

A vítima é médica há 10 anos e trabalha em dois hospitais da rede privada em Niterói, além de exercer a função no Hospital Pedro Ernesto e colaborar no atendimento de pacientes com a Covid-19 no Hospital de Campanha Lagoa-Barra, sendo essas duas últimas unidades no Rio de Janeiro.

Ela contou que as agressões do final de semana ocorreram em plena luz do dia, por volta das 17h, na Rua Marechal Jofre, após sozinha ter tomado a atitude de sair do apartamento onde mora com o filho de dois anos e pedir para que parassem a festa, que segundo a vítima, acontecia há dias seguidos numa casa vizinha, causando incômodo aos moradores da região. O pedido, no entanto, não foi atendido pelas pessoas que estavam no local.

“Nessa casa, fazem festas todos os dias e todas as noites. Sim, durante o dia também. Som altíssimo, ensurdecedor, por três dias seguidos”, relatou a vítima, que afirmou ainda que junto aos demais vizinhos chegou a realizar diversas denúncias à Polícia Militar, mas que, segundo ela, só esteve no local apenas no dia do crime.

Por conta das agressões, ela teve que engessar uma mão, e colocar imobilizador em outra. “É difícil ter noção de como é ficar sem uma perna e as duas mãos ao mesmo tempo”, lamentou.

De acordo com a profissional de Saúde, ainda no sábado (30) ela teria um plantão à noite, sendo que já havia trabalhado ao longo de todo o dia anterior, na linha de frente do novo coronavírus.

“Trabalho pesado, exaustivo. Precisava dormir um pouco de tarde para assumir meu plantão noturno e a festa continuava”

Ticyana Azambuja, médica

Por estar desesperada com o barulho e a impossibilidade de descanso, a médica admitiu que num ato de exaustão e desespero desceu até a rua e após não ser atendida, através de um ato, que segundo ela mesma classificou como “impensado” e “estúpido”, quebrou o retrovisor e trincou o para-brisa de um dos carros que estavam estacionados na calçada, o que teria motivado as agressões.

“Foi errado. Foi impensado. Foi estúpido. Mas sou humana e fiz uma besteira contra um bem material de outra pessoa. Não foi um ato contra nenhum outro ser humano, isso eu sou incapaz de fazer. Me lembro que cinco marmanjos saíram, e obviamente, bêbados e drogados, típicos ‘cidadãos de bem’, não estavam para conversa. Vi o potencial da besteira que fiz e saí correndo. Me agarraram em frente ao Hospital Italiano. Me enforcaram até desmaiar. Me jogaram no chão e me chutaram. Quando retornei à consciência, gritava por socorro!”

relato da vítima

Empatia

A médica também relatou que enquanto era agredida, os moradores do bairro passavam por ela e não ajudavam. Um homem que se prontificou a defender a vítima acabou sendo agredido com um soco na boca. Ticyana contou ter sido arrastada até a altura de um posto do Corpo de Bombeiros, onde uma mulher, frequentadora da festa, chegou a arrancar partes do cabelo dela.

Na ocasião, ela disse ter solicitado ajuda dos bombeiros para que garantissem a integridade física dela até a chegada da PM. “Eles negligenciaram ajuda e ficaram de braços cruzados”, lamentou a vítima.

Viaturas da Polícia Militar apareceram logo em seguida para realizar a ocorrência. Um casal de vizinhos foi responsável por explicar a situação aos militares e em seguida encaminhá-la a um hospital da região, onde ela recebeu suporte.

“Os policiais fizeram o registro com alguns moradores, com o dono do carro que abriu mão de qualquer reclamação, mas não conseguiram com os agressores ou o dono da casa. Que por sinal, voltaram para a casa e recomeçaram a festa. Sim. Esse é o escárnio”, indignou-se.

A médica disse que só parou de apanhar “um pouco” quando decidiram bater no vizinho. “A PM quando chegou, tinha boa vontade, mas disse que não podia fazer muita coisa porque tinha policial envolvido na casa [da festa].

“Eu pedia para que chamassem a polícia e alguém me ajudasse. Para que filmassem com um celular o que estava acontecendo, mas ninguém veio”, relembrou a médica.

Segundo a vítima, um dos agressores ainda teria mandado buscar um carro e ameaçado dar um “sumiço” nela. “Tive certeza que ia morrer”, contou.

Procurada, a Secretaria de Estado de Polícia Militar afirmou por meio de nota, que no último sábado (30), policiais militares do 6º BPM (Tijuca) foram acionados para verificar duas ocorrências em horários diferentes na Rua Marechal Jofre, no bairro Grajaú, Zona Norte do Rio.

Na primeira, por volta das 17h, foi apurado no local que uma mulher, bastante nervosa, danificou um veículo estacionado e por consequência foi agredida por um homem ainda não identificado. Um outro homem, que tentou defender a mulher, também foi agredido.

Na segunda ocorrência, comunicada um pouco mais tarde, os policiais militares do 6º BPM foram acionados para verificar denúncia sobre realização de uma festa na mesma rua. Por infringir as determinações do decreto governamental de isolamento social, o evento foi encerrado.

Com relação aos relatos da médica sobre um suposto envolvimento de policial militar em ato de agressão ou qualquer outro desvio de conduta, a pasta esclarece que a Corregedoria da Polícia Militar está à disposição dos cidadãos para receber e apurar denúncias.

O contato pode ser feito através do telefone pelo número (21) 2725-9098 ou ainda pelo e-mail [email protected] O anonimato é garantido, diz a PM.

O Corpo de Bombeiros, citado pela profissional de saúde, esclareceu nesta segunda-feira (1º) que a Corregedoria da corporação vai abrir procedimento interno para apurar o caso.

“O Corpo de Bombeiros do Rio se solidariza com a vítima e reforça que não compactua com atos ilícitos ou que vão de encontro à ética, à moral e aos bons costumes”, finaliza a nota.

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