quarta, 21 de outubro de 2020

‘Não é todo mundo que mora aqui que é bandido. Justiça!’

Moradores e amigos no adeus a João Pedro. Foto: Pedro Conforte

Com cartazes e gritos de ‘Justiça!’, dezenas de moradores do Complexo do Salgueiro interditaram, na tarde desta terça-feira (19), a Rua Nilo Peçanha, em frente ao Cemitério São Miguel, onde o corpo do estudante João Pedro Matos Pinto, de 14 anos, estava sendo velado. O adolescente foi baleado durante uma operação da Polícia Federal, com apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), na tarde de segunda-feira (18).

“Eu te amo, meu menino!” foi o grito de dor do comerciante Neilton Costa Pinto ao se despedir do filho. A mãe, a professora Rafaela Matos, também precisou ser amparada durante o sepultamento.

“Meu sobrinho era um jovem negro mas não era bandido. Chamam de Complexo do Salgueiro, mas não é todo mundo que mora aqui que é bandido. Queremos justiça!”

Denise Rosa, tia de João Pedro

O paradeiro do jovem após ser atingido na operação foi ocultado da família por pelo menos 16 horas — entre o resgate por helicóptero e a localização do corpo no Instituto Médico Legal (IML) de Tribobó, em São Gonçalo.

O inquérito da morte de João Pedro está sob os cuidados da Delegacia de Homicídios de Niterói e São Gonçalo (DHNSG). No entanto, os agentes de segurança envolvidos na ação policial que vitimou o estudante podem se tornar alvos de uma investigação própria do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), antecipou a promotoria.

A iniciativa de acionar a fiscalização externa partiu de duas frentes: Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública (Nudeh).

A presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputada estadual Renata Souza (Psol), defende que o MP, através do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP), apure a conduta dos agentes envolvidos.

“A família ainda está muito abalada. As questões objetivas ficam prejudicadas nesse momento. Disponibilizamos auxílio psicológico. É uma situação completamente descabida, irracional e desumana”

Renata Souza, deputada estadual

A Polícia Civil emitiu nota detalhando o andamento do inquérito. A DHNSG recebeu depoimento de testemunhas, apreendeu o armamento utilizado para confronto balístico e periciou a área da operação. O governador Wilson Witzel (PSC) se pronunciou afirmando que ‘determinou rigorosa investigação sobre as condições da morte do jovem’. Sobre o caso, a PF informou que acompanha o inquérito e dará apoio para a elucidação dos fatos.

No vídeo o relato emocionante da tia do adolescente

No IML familiares falaram sobre a angustia sofrida. Imagens: Ibici Silva

Operação

A ação da PF, iniciada na tarde desta segunda, contou com apoio de veículos blindados, helicóptero e lanchas. Localizado às margens da rodovia BR-101, artéria da região metropolitana do Rio, o Complexo do Salgueiro congrega cerca de 50 mil moradores em cinco bairros — sob o julgo de grupos criminosos que operam o tráfico de drogas e roubo de cargas.

O ponto de inflexão da operação, de acordo com a Polícia Civil, foi uma troca de tiros em que dois seguranças do tráfico invadiram uma residência na Praia da Luz, em Itaoca, região do complexo próximo à Baía de Guanabara. No momento do confronto, tropas da Coordenadoria de Recurso Especial (Core) estavam dando apoio à PF.

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Operação da PF contou com veículos blindados, aeronaves e lanchas. Foto via grupo Plantão Enfoco

Dados da operação obtidos pelo Plantão Enfoco apontam que agentes da PCERJ teriam enfrentado artefatos explosivos para acessar a casa na Praia da Luz. Após a incursão, houve confronto. Ao atravessar os cômodos, os policiais localizaram no quintal João Pedro, ao chão, baleado, ainda com vida.

Agentes do helicóptero da PCERJ conduziram o jovem até a base do Grupamento de Operações Aéreas do Corpo de Bombeiros (GOA/CBMERJ) no bairro da Lagoa, na Zona Sul do Rio de Janeiro, antes da chegada da perícia da DHNSG.

João Pedro foi recebido pela equipe médica do Corpo de Bombeiros, de acordo a PCERJ, que constatou o óbito. Ele foi encaminhado ao IML de Tribobó pela Defesa Civil, operado pelo governo estadual, de acordo com nota da CMBERJ.

De acordo com a família, João estava apenas na presença de um primo menor, se protegendo do tiroteio. A família informou que não recebeu notícias dos órgãos de segurança envolvidos até que João fosse localizado por parentes no IML. Seu corpo foi velado no Cemitério de São Miguel, em São Gonçalo, sob comoção.

O alvo

Disque Denuncia oferece recompensa para quem tiver informações sobre o acusado. Foto: Divulgação

O alvo principal da operação que resultou na morte do adolescente era o traficante Ricardo Severo, o Faustão, de 40 anos. Apontado como liderança da facção criminosa Comando Vermelho (CV), o criminoso estaria atualmente ocupando o posto de representante maior do bando no Complexo do Salgueiro, chefiando principalmente o tráfico de drogas na localidade de Itaoca.

Comandada pela Polícia Federal com apoio da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), a operação tinha como objetivo cumprir dois mandados de busca e apreensão. Durante a ação, seguranças dos traficantes tentaram fugir pulando o muro de uma casa. Segundo os policiais, os criminosos dispararam contra os agentes e arremessaram granadas.

Fontes da Polícia Civil informaram que Faustão foi localizado durante a operação. Oriundo da Vila do Cruzeiro, no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, o criminoso está foragido da justiça desde 2015, quando conseguiu inverter a pena para cumprimento em regime semiaberto no Instituto Penal Edgard Costa, em Niterói. Mas não retornou à unidade.

De acordo com o Portal dos Procurados, que oferece recompensa de R$ 1 mil por informações da localização do traficante, Faustão havia sido preso em 2010, após ser baleado durante a ocupação do conjunto de favelas do Rio pelas forças de segurança. O criminoso também é investigado por estar envolvido na queda de um helicóptero da Polícia Militar, no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, em 2009.

Reportagem: Eduarda Hillebrandt, Matheus Merlim e Tiago Souza

Publicado às 16h41

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