segunda, 30 de novembro de 2020

‘O que será dos meus netos?!’, morte e revolta em São Gonçalo

“Vergonha, tristeza, desgosto e justiça”. Essas quatro palavras podem resumir o sentimento de Almir Barbosa, pai do mototaxista Smaly Silva, de 24 anos, morto, no último sábado (17), durante uma ação do 7ºBPM (São Gonçalo) no bairro Jardim Catarina, em São Gonçalo. Familiares e amigos da vítima acusam um policial militar de ter atirado e matado o jovem que estava com um amigo durante a abordagem feita pelos agentes.

“Já se passaram dias do ocorrido e eu ainda não consegui assimilar tudo que aconteceu. Não falo que meu filho foi morto e sim que ele foi executado por um policial militar despreparado. Existem PMs honestos que realizam o seu trabalho de forma digna e tem os despreparados como os que estavam na rua naquele dia e abordaram o meu filho. Ele não tinha uma arma em mãos, não oferecia risco nenhum e foi executado com um tiro no ombro. E agora?”, disse o pai da vítima.

Segundo o pai da vítima, Smaly, que possui carteira de habilitação, estava levando um amigo em casa, a bordo de uma motocicleta, quando foi abordado pelos policiais na Rua Olegário Nascimento, no Jardim Catarina. O garupa da motocicleta, segundo a família, teria descido da motocicleta e quando Smaly foi descer da moto acabou sendo alvejado no tórax por um tiro realizado pelos policiais.

Almir e Smaly: uma relação de pai e filho cortada pela violência em São Gonçalo. Foto/Arquivo Pessoal

“Qual foi o motivo do disparo realizado no meu filho? Qual era o risco que ele apresentava naquele momento? Por que afirmaram que o meu filho era envolvido? Ele trabalhava como prestador de serviços de uma empresa de manutenção de água e como mototaxista nas horas vagas. E agora, quem vai contar para os meus netos que a PM matou o pai deles de forma tão covarde?”, concluiu.

Smaly deixa dois filhos, um menino de 5 anos de idade e uma menina de 1 ano e 4 meses. Ele foi sepultado, na última segunda-feira (19), no Cemitério São Miguel, em São Gonçalo.

Versão da PM

Os policiais relataram, durante depoimento na Delegacia do Alcântara (74ªDP), que realizavam patrulhamento de rotina cumprindo uma ordem de policiamento quando foram surpreendidos por seis homens, a bordo de três motocicletas. Durante a abordagem, os agentes relataram que foram atacados pelo grupo, dando início a um confronto armado, que durou cerca de 30 segundos.

Após o cessar do confronto, um homem foi preso em flagrante com uma mochila contendo 141 tabletes de uma erva seca, não identificada. Já Smaly, segundo os policiais, estava na garupa de uma das motos utilizadas pelos suspeitos, foi encontrado caído ao solo com um tiro no tórax. De acordo com os agentes, ao lado de Smaly, foi encontrado uma pistola calibre 9mm, um carregador e um cartucho.

Uma pistola foi encontrada próxima ao corpo de Smaly, segundo a PM. Foto/PMERJ

Segundo os PMs, ele foi socorrido e levado para o Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), no Colubandê, mas não resistiu aos ferimentos e veio a óbito na unidade de saúde. A Polícia Civil investiga se a vítima possuía alguma ligação com criminosos da região.

Manifestação em razão da morte de Smaly

Um grupo de manifestantes realizou protestos, na manhã da última terça-feira (20), nas duas rodovias que margeiam o Jardim Catarina, em São Gonçalo, em razão da morte de Smaly.

Manifestação na BR-101, em São Gonçalo
Manifestação de moradores fechou parte da BR-101. Foto: PMERJ

Primeiro, dezenas de pessoas interditaram a BR-101, na altura do km 307, e colocaram fogo em pneus na rodovia e causaram um engarrafamento de cerca de 7km. Após a chegada da polícia, parte do grupo foi para outra entrada do bairro, localizada na RJ-104, e queimaram objetos causando um pequeno congestionamento na via.

Município é o segundo com mais mortes por intervenção policial em 2020

De janeiro a setembro deste ano, o município de São Gonçalo já registrou 158 mortes por intervenção de agente do Estado. É a segunda cidade com maior número de mortes dessa magnitude, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro, que conta com 322 casos registrados.

De acordo com os dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ), a área com maior incidência de mortes por intervenção policial no município é referente aos bairros investigados pela Delegacia do Alcântara (74ªDP). Ao todo, na área investigada pela distrital, foram 65 mortes, o equivalente a cerca de 41% dos óbitos em decorrência de agentes do Estado em São Gonçalo.

Na sequência, vieram a Delegacia do Rio do Ouro (75ªDP), com 37 mortos, a Delegacia do Mutuá (72ªDP), 32, e a Delegacia de Neves (73ªDP), 24.

Em relação ao mesmo período do ano passado, o município apresentou uma queda de 4,8%. De janeiro a setembro do ano passado, foram registradas 166 mortes em decorrência de intervenções policiais.

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