quarta, 28 de outubro de 2020

Violência contra a mulher cresceu 50% durante a pandemia

Violência, Feminicidio, Maria da Penha
Pesquisa chama atenção para natureza da situação, como a pressão psicológica e subnotificação de casos. Foto: Agência Brasil

Desde o início da recomendação de isolamento social no Estado, em março, houve um aumento de cerca de 50% na demanda de casos de violência contra a mulher. Os dados são do plantão judiciário do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ).

Pesquisa do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj) conta com apoio da Faperj e chama atenção para natureza da situação, como a pressão psicológica e subnotificação de casos.

“Para a maioria das pessoas ficar em casa nesse momento de quarentena é sinônimo de proteção. Mas para muitas mulheres, de diversas idades e condições econômicas, que também precisam lidar com o medo de contaminação pelo vírus, a quarentena representa o desafio de permanecer trancada com o agressor em seu próprio lar, 24 horas por dia”, disse a médica e professora Claudia Leite de Moraes, do IMS/Uerj e do curso de Pós-Graduação em Saúde da Família da Universidade Estácio de Sá.

Contemplada pelo programa Cientista do Nosso Estado, por meio do qual recebe apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas, ela coordena, na universidade, o Programa de Investigação Epidemiológica em Violência Familiar (PIEVF), que completou 20 anos em 2019.

Em meio à pandemia, uma dura realidade, mascarada em muitos lares, torna-se, agora, mais visível. O número de casos de violência contra a mulher vem crescendo de forma substancial, no mundo inteiro, nesse período em que diversos países adotaram medidas necessárias de isolamento social para frear o avanço do novo coronavírus.

Na China, por exemplo, ativistas de direitos humanos denunciaram que os casos de agressões à mulher triplicaram durante a quarentena. Na França, desde o começo da crise sanitária, houve um aumento de aproximadamente 30% dos casos de polícia relacionados às agressões contra mulheres. 

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU Mulheres), mesmo antes da disseminação global do coronavírus, um terço das mulheres em todo o mundo já experimentou alguma forma de violência em suas vidas, seja física ou psicológica. No Brasil, não é diferente.

“Vale lembrar que muitos casos de violência contra a mulher são subnotificados, porque há o medo e a resistência da vítima em denunciar, além da dificuldade concreta de contato presencial com as instituições de proteção à mulher no período da pandemia”, completou. 

A pressão psicológica, que cresce naturalmente com as notícias sobre o avanço da pandemia, e o aumento do tempo de convívio com o agressor são apenas alguns fatores associados à violência contra a mulher nessa quarentena.

“O aumento do estresse e a sobrecarga de trabalho em casa para a mulher, que muitas vezes é a principal ou única encarregada dos cuidados com familiares, são alguns fatores que propiciam a ocorrência de violência, em lares onde a principal forma de comunicação já é a violência. O maior tempo de convívio com os agressores, que passam a ter maior controle e poder sobre a vítima, e a redução do contato com a rede psicossocial de apoio individual e coletivo, como amigos, família, trabalho e escolas, também aumentam o risco de violência”, acrescentou. 

A própria conjuntura econômica também contribui para agravar as tensões domésticas. A perda de empregos afeta especialmente as mulheres, que se concentram no setor de Serviços, o mais afetado pela crise, e ainda representam a maioria da força de trabalho no mercado informal, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Além das restrições de movimento decorrentes da quarentena, as limitações financeiras e o sentimento de insegurança encorajam os abusadores, dando-lhes poder e controle adicionais. O abuso de álcool e drogas, mais frequente em situações de crise, também compõe o quadro que pode levar a intensificação e a ocorrência de novos casos de violência”, resumiu.

Diante de situações de violência contra a mulher, Cláudia destaca a importância de uma atenção redobrada dos vizinhos e familiares durante o confinamento.

“Especialmente nesse período de isolamento social, os vizinhos, amigos e familiares têm que se conscientizar que em briga de marido e mulher é preciso, sim, meter a colher. Muitas vezes, eles são os que têm melhores condições de realizar denúncias de violência, já que não estão diretamente expostos aos agressores. É preciso ter muita atenção às situações suspeitas, como gritos, choros, discussões em voz alta e ameaças. As denúncias anônimas podem evitar situações mais graves e até a morte”, alertou.

Em relação aos cuidados por parte de familiares, ela ponderou: “Os familiares devem estranhar situações como a perda repentina de contato, pelo telefone e redes sociais. É importante que mulheres em situação de violência busquem fazer o isolamento social com outros familiares, e evitem ficar sozinhas com o agressor”

A pesquisadora destaca que, nesse momento de quarentena, é fundamental a organização de redes institucionais de apoio a distância, com canais para assistência remota à mulher vítima de violência, pela Internet e pelo telefone.

“No início da quarentena, as instituições públicas e redes de apoio tiveram que se organizar às pressas para oferecer esse tipo de assistência remota à mulher. Muitas dessas trabalhavam apenas presencialmente, mas agora já é possível notificar as agressões e crimes via Internet, até mesmo por aplicativos, e por telefone, inclusive de forma anônima”, observou Cláudia.

Além dos canais para realização de denúncias via telefone (o Ligue 180, especializado no atendimento à mulher em situação de violência; o Disque 100, para denúncias de violações aos direitos humanos; e o telefone 190, da Polícia Militar) e pela internet (Ministério Público), o Governo Federal disponibilizou no mês de março o aplicativo “Direitos Humanos Brasil” para recebimento de denúncias de violência doméstica.

Recentemente, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) divulgou um material informativo com enfoque na violência contra a mulher neste período. O material tem como objetivo conscientizar mulheres sobre possíveis situações de violência e disponibilizar canais de ajuda nesse momento, e meios de denúncia para vizinhos e familiares diante de casos suspeitos. A Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro também divulgou uma cartilha, que pode ser acessada aqui. Além destes canais, as delegacias de mulheres e delegacias comuns mantêm o funcionamento 24 horas.

Publicada às 13h53

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