sábado, 24 de outubro de 2020

Empresário nega ligação com envio de mensagens pró Bolsonaro

O empresário Marcos Aurélio Carvalho (centro) criticou estratégias de envio em massa de conteúdos por Whatsapp. Foto: Roque de Sá – Agência Senado

Em depoimento à CPI das Fake News nesta quarta-feira (4), o empresário Marcos Aurélio Carvalho, sócio da agência de marketing AM4, negou qualquer vinculação do seu trabalho com empresas que operam envios em massa de mensagens telefônicas.

A AM4 coordenou o marketing eleitoral e a captação financeira para as campanhas do presidente Jair Bolsonaro e do PSL em 2018. Os serviços executados foram sites de campanha, contato com influenciadores digitais, desenvolvimento de plataforma para doações e, no segundo turno do pleito presidencial, vídeos para propaganda eleitoral.

Serviços de envios de mensagens em massa são investigados pela CPI, onde já foram ouvidos um ex-funcionário e um proprietário da empresa Yacows, baseada em São Paulo, que trabalha com essa atividade. Esses depoimentos citaram a AM4 como produtora de conteúdos que a Yacows repassou para diversos números de celular durante o período eleitoral.

Segundo Carvalho, a AM4 executou apenas um serviço de envio de mensagens através da Yacows. A empresa usou a ferramenta Bulk Services, operada pela Yacows, para informar a cerca de 9 mil doadores de campanha sobre uma mudança no telefone de contato da plataforma de doações.

O empresário negou que a empresa tenha adotado como ação de campanha o envio sistemático de material político para grandes grupos de destinatários.

“Em hipótese alguma atuamos com disparos [de mensagens em massa]. Não há nenhum crime, mas achamos que não é eficiente da forma como se imagina que seja. A AM4 não é uma empresa de WhatsApp”, explica.

Carvalho criticou duramente o modus operandi da Yacows, que ele classificou como “submundo”. A empresa foi acusada de usar chips de celular registrados sob números de CPF obtidos irregularmente para enviar mensagens.

Ele declarou que não tinha conhecimento dessas práticas até elas serem reveladas à CPI. Relatou ainda que a AM4 não estava ciente da ligação da Yacows com a ferramenta Bulk Services. Ainda segundo o empresário, a nota fiscal referente ao serviço foi emitida em nome de uma segunda empresa, Kiplix.

Parlamentares perguntaram sobre reportagem da Folha de S. Paulo que revelou que o material enviado pela Yacows em nome da AM4 foi apagado. Carvalho afirmou possuir registros do conteúdo e que os encaminhará à CPI.

Ele assegurou que seus funcionários não foram responsáveis por apagar as mensagens e aconselhou a comissão a solicitar os backupsmantidos pela Yacows, que podem oferecer uma resposta. O representante da Yacows, Lindolfo Neto, havia dito à CPI que não teria informações sobre o caso.

Marcos Aurélio Carvalho também criticou o ex-funcionário da Yacows Hans River, que acusou a AM4 em seu depoimento à CPI. Tanto River quanto Lindolfo Neto confirmaram que a AM4 participou de audiências no processo trabalhista que resultou em acordo entre Rivers e Yacows. Carvalho disse que ambos incorreram em “calúnia absurda” e que pode provar, através das atas das audiências, que essa informação não procede.

Carlos Bolsonaro

Após trabalhar para a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro, Marcos Aurélio Carvalho chegou a integrar a equipe de transição do governo por alguns dias, em novembro 2018, antes de se desligar voluntariamente.

O rompimento aconteceu depois de declarações de Carlos Bolsonaro, filho do presidente, em resposta a menções ao nome de Carvalho na imprensa como um “conselheiro” do governo. Em publicações em redes sociais, Carlos disse que o empresário queria “se dar bem de algum jeito”.

Carvalho disse que não tinha contato com Carlos durante a campanha, e que os dois só se encontraram pessoalmente três vezes. Segundo ele, não houve nenhuma ingerência da família do presidente sobre o trabalho da equipe de marketing no período eleitoral, mas esses atritos começaram a surgir no período de transição.

Após as declarações de Carlos Bolsonaro, Carvalho decidiu encerrar a “aventura” — palavra que usou para descrever a participação da AM4 na campanha eleitoral.

“Quis uma retratação, mas os nossos interlocutores disseram que não era hora. Como não tive respaldo, pedi para sair. Nunca foi meu interesse ter participação em governo”, finaliza.

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